quarta-feira, fevereiro 22, 2012

A Vida É Sonho - Pedro Calderon de La Barca

A vida é sonho  ( La Vida es Sueño) é do dramaturgo espanhol Pedro Calderon de La Barca estreiou em 1635, conheci este texto nesta semana, e me fez refletir mais um pouco sobre a vida e os sonhos.

O texto narra as aventuras de Segismundo, filho renegado de Basílio, rei da Polônia que ao nascer é trancado em uma torre. Seu único contato com o mundo externo é Clotaldo, seu guardião e fiel servo de seu pai.

"Na obra o príncipe Segismundo vive desde a infância numa prisão escura, acorrentado, tendo sido ali colocado por seus pais em virtude de uma profecia que vaticinava que ele, chegando à idade adulta, traria grandes desgraças ao reino.



Muitos anos depois, o rei arrepende-se e começa a pensar se havia procedido corretamente aprisionando o filho daquele modo. Manda então narcotizá-lo, retirá-lo da prisão e, ao acordar daquele sono estranho Segismundo se vê no palácio real, bem vestido e cheio de jóias. Dizem-lhe que ele é príncipe, e que tudo aquilo que lhe havia acontecido antes teria sido apenas um sonho.

Uma vez investido no seu novo papel, Segismundo, de acordo com a profecia, começa a cometer os desatinos que haviam sido anunciados quando do seu nascimento. Sem conseguir suportar seus desmandos e loucuras, o rei faz a operação inversa: narcotiza-o, despe-o das roupas caras e das jóias e encerra-o novamente no escuro calabouço, preso a grossas correntes."
Texto de Clotilde Tavares – Escritora e Professora

Origem Temática

As concepções de La Vida es sueño são bastante antigas, existem referências no penamento hindu, na mística persa, e na oral budista, assim como tradição judaico-cristã e na filosofia grega. Segundo Platão, o homem vive em um mundo de sonhos, de escuridão, cativo em uma cova da qual só poderá se libertar tendendo para o bem. Unicamente deste modo, o homem deixará a matéria e chegará até a luz.

A influência desta concepção neste título é evidente, a personagem Segismundo vive no princípio dentro de um cárcere, numa caverna, na qual permanece na mais completa escuridão pelo desconhecimento de si mesmo, e somente quando é capaz de ter conhecimento de quem realmente é, alcança o triunfo da luz.
Fonte: Wikepédia

Outro ponto de vista:
A vida é sonho

"Peça de teatro escrita por Calderón de la Barca e encenada na corte espanhola de Felipe IV em 1635, a vida é sonho trata de como a vida é uma momentânea ilusão a que somos submetidos até que, através do sono da morte, somos conduzidos a vida real, isto é, a eternidade. O objetivo é, uma vez constatada que a vida é sonho e ilusão, instruir como se deve vivê-la para não sermos surpreendidos e perdê-la por toda a eternidade.

Trata-se, portanto, de uma peça com fins de instrução e doutrinação a uma audiência cortesã e católica da Espanha filipina do século XVII. A peça tem por base uma passagem retirada do Livro dos Eclesiastes, "por isso odiei esta vida, porque a obra que se faz de baixo do sol me era penosa; sim, tudo é vaidade e aflição de espírito.", como bem nos dizem Luís Filipe Lima e Ricardo Valle na introdução dessa tradução brasileira publicado pela Editora Hedra em 2008.

Recentemente, A vida é sonho foi inspiração para uma peça de teatro protagonizada por Dan Stulbach e Tony Ramos e intitulada Novas Diretrizes em Tempo de Paz. Esta, por sua vez acabou originando um filme que estreou nos cinemas brasileiros em meados de 2009 com o nome de Tempos de Paz e que manteve a mesma dupla de atores nos papéis principais de Segismundo (Ramos) e Clausewitz (Stulbach)."
Roger Beier. Historiador. Mestrando em História Social pela USP.

Confira o vídeo: Monológo de Segismundo:

"Ai de mim, ai, pobre de mim! Aqui estou, ó Deus, para entender que crime cometi contra Vós.
Mas, se nasci, eu já entendo o crime que cometi. Aí está motivo suficiente para Vossa justiça, Vosso rigor, porque o crime maior do homem é ter nascido. Para apurar meus cuidados, só queria saber que outros crimes cometi contra Vós além do crime de nascer. Não nasceram outros também?



Pois, se os outros nasceram, que privilégios tiveram que eu jamais gozei?
Nasce uma ave e, embelezada por seus ricos enfeites, não passa de flor de plumas, ramalhete alado quando veloz cortando salões aéreos, recusa piedade ao ninho que abandona em paz.

E eu, tendo mais instinto, tenho menos liberdade?
Nasce uma fera e, com a pele respingada de belas manchas, que lembram estrelas.

Logo, atrevida e feroz, a necessidade humana lhe ensina a crueldade, monstro de seu labirinto. E eu, tendo mais alma, tenho menos liberdade? Nasce um peixe, aborto de ovas e Iodo e, feito um barco de escamas sobre as ondas, ele gira, gira por toda parte, exibindo a imensa habilidade que lhe dá um coração frio.
E eu, tendo mais escolha, tenho menos liberdade?

Nasce um riacho, serpente prateada, que dentre flores surge de repente e de repente, entre flores se esconde onde músico celebra a piedade das flores que lhe dão um campo aberto à sua fuga.
E eu, tendo mais vida, tenho menos liberdade? Assim, assim chegando a esta paixão, um vulcão qual o Etna quisera arrancar do peito, pedaços do coração.
Que lei, justiça ou razão pôde recusar aos homens privilégio tão suave, exceção tão única que Deus deu a um cristal, a um peixe, a uma fera e a uma ave?"

Depois que Segismundo é preso novamente na torre podemos conhecer esse maravilhoso monólogo:

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular



que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.

- Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?

- Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.

- Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.

Ao ler o texto podemos encontrar muitas coisas interessantes, vemos nele a incerteza da vida. Segismundo é criado sem conhecer nenhuma outra realidade a não ser a dele, dentro de sua realidade ele possui consciência dos seus atos, sabe o que é certo e o que é errado em sua concepção , é claro. Pois ele sabe apenas, da sua certeza, da sua verdade.

Quando lhe fazem dormir novamente e o colam na prisão  ele já não sabe se sonha ou se está acordado, pensa: Será que vivi um sonho? Ou será que agora é que estou sonhando?

Quando todo o processo é revertido, ele já faz tudo diferente do que tinha feito antes na primeira vez que foi retirado da prisão. Ele já começa a agir por medo, ele começa a fazer o que é correto não só para ele naquele momento, mas correto a todos.

A certeza de Segismundo não é a mesma da sociedade. No começo do texto ele acha correto matar para provar suas razões, depois não mais, a sociedade aprisiona o seu eu fazendo-o viver conforme as regras. Por medo de voltar à prisão e por já não saber se sonha ou se vive, ele cumpri as regras...

Leia o texto e tire suas conclusões se você já leu deixe sua opinião!

Besos,
Crys. 

5 comentários:

  1. A luz é conhecida por poucos. Mesmo os poucos que a conhecem, nem todos vão em direção a ela. Provavelmente eu seja um destes. Embora, cheio de sentimentos e consciente de para onde seguir, tenho vontade preguiçosa estimulada pelos novos meios de comunicação a permanecer inerte. Segismundo, quando mais uma vez a oportunidade se abriu a seu olhos, mudou sua atitude a fim de manter sua liberdade. Até quando irei permanecer espontaneamente com estas cadeias que me amarram?

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  2. Que lindo o que escreveu, real, verdadeiro e belo. Como é difícil reconhecer o quão preguiçosos nos tornamos. Me faço essa pergunto todos os dias, até quando irei permanecer??

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  3. A conclusão que tenho é de que a vida realmente pode ser um sonho, enquanto os sonhos apenas sonhos são (sonhados!). Segismundo, foi aprisionado por uma profecia, o que poderia ser verdade ou não. Preso acabou por conhecer a si próprio, criando suas próprias regras. Imaturo para a real vida, quando o Rei Basílio seu pai lhe permite sair da prisão, comete atos inconsequentes, como o de jogar um criado pela janela. Novamente preso, o fazem crer que tudo o que havia vivido era um sonho. Nesse jogo de fazê-lo crer que certas situações vividas eram sonhos, faz com que desconheça a vida real e também os sonhos.
    Além de tudo, dos sonhos e da vida, Segismundo também conhece o amor e a atração, encanta-se por Rosaura mas casa-se com Estrela, que desolada perde seu pretendente Astolfo.

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  4. Pedro Calderon de La Barca escreveu em espanhol, obviamente e utilizou-se da polissemia da palavra sueño (sono ou sonho) e isso deixa mais encantador ainda. A vida então é sonho ou sono. Como ele pode escrever toda uma obra, narrar uma história e tudo com sentido, profundidade, dentro e métrica, só tem uma explicação. Genialidade..

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  5. Fantástico texto! Nos dá a dimensão exata de quem somos e onde estamos. Para sempre acorrentados ou lutando para quebrar os grilhões? Quem afinal somos? E onde estamos?

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